Editora Livre Popular Artesanal

"Mesmo que seja facil e divertido, estamos cansados de sermos espectadores. Queremos fazer alguma coisa, queremos fazer a nossa cultura ao invés de somente comprá-la."

Group Material

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A "Mineirinha e outras histórias" no satélite KEO



O KEO é um satélite espacial, com lançamento previsto para 2014, que contem uma cápsula do tempo. Esta levará consigo mensagem escritas pelos cidadãos do planeta terra, que serão lidos pela humanidade daqui há 50000 anos, quando a cápsula voltará na atmosfera da Terra.

O projeto da UNESCO, da Agencia Espacial Européia e de muitas outras entidades parceiras, prevê que junto as mensagens sejam enviadas também um diamante contendo o DNA do genoma humano, um relógio astronômico, fotografias de todas as culturas e uma enciclopédia completa do atual conhecimento humano.

Cada ser humano é convidado a escrever uma mensagem para o futuro. As mensagens deverão ser escritas no site do projeto: http://www.keo.org/uk/pages/message.php e os organizadores convidam a recolher textos também das crianças ou de pessoas não letradas de forma que possam ser representadas a maioria das culturas da terra em suas diversidades e polivalências.

Lamparina Luminosa decidiu aderir a este belíssimo projeto enviando um texto do livro a Mineirinha e outras histórias junto a uma pequena introdução. O texto que será enviado no espaó e lidos pelos humanos em 500 séculos é este:


Em 2010, na periferia da cidade de São Bernardo do Campo, em São Paulo no Brasil, criamos uma editora de livros cujo foco foi a cultura popular, o resgate da historia através da memória e a valorização das sabedorias da população. Um dos primeiros livros publicado foi “A mineirinha e outras histórias”, uma coletânea de contos de pessoas em fase de alfabetização, que reúne a literatura de quem, na idade adulta, escreve pela primeira vez.

Os relatos tem como fonte e matéria prima as memórias de pessoas migrantes, provenientes de outros estados do Pais em busca de condições melhores de vida, trabalhadores e trabalhadoras que por causa das injustiças sociais, viveram as adversidades de uma vida confinada na pobreza.

Um dos textos publicados é o do Genivaldo (conto reportado aqui em baixo) e conta uma inundação acontecida no bairro periférico onde ele mora. Quando lhe perguntei porque queria colocar este episodio no livro ele me respondeu que serviria para as pessoas que moram em condições melhores, saber o que se passa nas periferias e, ao mesmo tempo, para as pessoas do seu bairro não esquecer o que os moradores já tiveram que suportar.

Porem aposto que Genivaldo nunca imaginou que este seu relato pudesse ser lido a distancia de tanto tempo e assim servir para que também pessoas de outros séculos não esqueçam as dificuldades da vida nas periferias nos séculos passados.

Quando eu salvei uma vida
Genivaldo Ferreira de Souza

Nasci na Bahia, nos éramos doze irmãos. Com oito anos comecei trabalhar na plantação de café com meu pai. Plantava milho, feijão, arroz, café; gostava de caçar. Sonhava ser um fazendeiro.Quando voltava para casa era noite e não dava para estudar, nos aproveitava para brincar. Eu gostava muito de andar a cavalo.

Com quinze anos construí uma casa de madeira no sitio e fui morar nela. A vida era tranqüila, não tinha violência. Gostava muito das festas juninas, minha mãe fazia biscoitos, matava porco para comprar roupa de festa junina. Plantei cana e não deu certo.

Então resolvi vir para São Paulo morar com a Irmã. Morei com ela um ano e voltei para Bahia. Trabalhei na roça com meu pai e comprei uma vaca e dois cavalos bons. Depois voltei para São Paulo, vendi os cavalos e a vaca para vir embora.

Novamente morei com minha irmã, depois aluguei uma casa, comprei um barraco no Jardim Silvina e depois comprei uma casa e conheci novos amigos. Depois de um tempo conheci minha vizinha e começamos a namorar - resolvemos morar juntos e logo ela engravidou. Tenho uma filha que amo demais,é a razão da minha vida.

Teve uma vez que começou a chover muito. Era um sábado de novembro 2006, eu estava no boteco do meu sogro, começou chover e de repente o rio que passava próximo da minha casa encheu. Ouvia as pessoas pedindo socorro, fui ver o que estava acontecendo, eu e meu irmão.

O rio trasbordou, parecia uma onda levando tudo no seu caminho, rapidinho chegou. Começou a invadir as casas dos vizinhos. Vimos uma mulher gritando, quando chegou lá tava tudo alagado, som, geladeira, tudo coisa nova do pessoal, tudo boiando por cima d’água. E umas pessoas, senhora de idade, tudo dentro da água. Teve vizinho que largou as coisas lá em casa, colchão, o resto de comida que sobrou, largo em casa lá. Eles ficaram apavorados então resolvi ajuda-los.

Entrei em um barraco, me reparei com uma criança desmaiada, logo fui ajuda-la, fiquei muito feliz por ter ajudado ela. Não senti medo, me senti com coragem. Tirei algumas coisas e tomei choque, quase a água me levou. Depois entrei em outro barraco porque tinha três pessoas em cima da caixa de água numa laje, e alguns caras estavam amarrados em uma corda para chegar até o barraco. Era perto da boca do lobo e a água fazia moinho. Eles não conseguiram porque era o lugar mais fundo e a água era mais forte. Então eu e mais 02 caras conseguimos ir até eles. Me amarrei em uma corda para a correnteza não me levar, mas tinha gente me ajudando.Pegamos as pessoas e passamos para quem estava no lugar mais baixo.Tinha muita gente chorando porque perderam tudo, eram todos desesperados e ficavam nervosos. Eu vendo aquilo fiquei balançado.

No outro dia fui ver aquele local, não tinha mais ponte, a água levou.




Nenhum comentário:

Postar um comentário